23.12.15

Termo de encerramento


Comecei este blog em Dezembro de 2004. O título fui buscá-lo a um livro de Maria Ondina Braga, a quem hoje dedico um espaço e o desejo de o ampiar. Era nome de uma crónica que subscrevi no Diário de Notícias.
Desde aí mantive-o com alguma regularidade. Era aqui que depositava as minhas opiniões cívicas, tendo explicitado que isso era, na minha ideia, mover-me num terreno mais vasto do que o da política.
Com a passagem do tempo foi-se acumulando a ideia de haver tantos a opinarem sobre a vida social - e afinal sobre tudo e mais alguma coisa - que menos um não fazia diferença; além disso havia progressivamente mais comentadores encartados e com lugar cativo e, por isso, audiência segura, pelo que o que pudesse ir escrevendo - e tal sucedia cada vez mais ocasionalmente - ia pouco além de um aparte em casa de amigos complacentes.
A tudo isto junta-se hoje a incapacidade completa de me entender com o que se passa na vida política do que se chama ainda "democracia" e que pode ser tudo mas não é seguramente a participação activa da colectividade na vida pública: partidos que pareciam ter perdido eleições e afinal governam, partidos que afinal saíram, como se derrotados, mas que apoiam o que parece liderar a governação, coligações que não se esperavam mas que permitiram chegar ao poder e que, uma vez neste, desamparam o partido com que se coligaram; tudo mais a completa ausência de ideologia, os programas dos partidos a nada terem a ver com aqueles com que se apresentam a eleições e ambos muito diferentes face ao que tornam programa de governo.
Restam as eleições presidenciais mas, confesso, sobre elas nem sei o que pense, nem sobre os candidatos e o modo como me vou dando conta do modo como se apresentam.
Dir-se-á que se trata de ingenuidade minha, pois que a política é afinal, isto mesmo, a indefinição, o arranjo de ocasião, a mutação permanente em nome do pragmatismo, o triunfo da realidade e não das ideias, menos ainda dos ideais.
Seja assim. Não quero ter razão. Tê-la seria significar que ela teria qualquer utilidade.
E por admitir que é assim que tudo se passa e por verificar que com tudo isto se convive mesmo com a apatia da abstenção eleitoral, retiro-me para o território do silêncio. Na vida pública ter para dizer é, pela manifestação da livre opinião, um contributo para um melhor futuro.
Não que a sorte dos meus concidadãos me seja indiferente, sim porque em consciência acho que, para além da lamúria moralista, pouco contributo trarei tais as perplexidades que tornaria crónica. Para isso era preciso que eu conseguisse entender-me com o que se passa e não sentisse este estado de alheamento.
Não direi que sou de um mundo de ontem. É verdade que na juventude dos meus vinte anos talvez o maniqueísmo com que fazia activismo me fosse mais reconfortante. Hoje, ante partidos que são expressões de revolta sem ideologia, movimentos espontaneístas sem história nem programa que, num ápice, partilham do poder a capacidade do mando, junto confusamente o pessimismo conservador ao optimismo revoltoso. E não tenho esperança. Uma profunda revolução talvez nos salve da profunda decadência em que caímos como civilização. Nenhum dos "ismos", tendo gerando hecatombes e carnificinas, se mostrou solução para a vivificação do Homem Integral.
A quantos tiveram a gentileza de ir lendo e tantas vezes tributaram palavras de generosa amabilidade aqui fica a expressão pública da gratidão. Há na vida pública um tempo para saber que o tempo deixou de ser o nosso tempo.

13.10.15

A "chapelada"


De 1966 a 1974 lutei pela democracia, como mo permitia o ser jovem. Era-me impossível conviver sem revolta com um regime político que amputava as liberdades públicas, impunha censura à imprensa, apreendia livros, congelava a participação política num partido único, semeava a sombra de informadores e outros esbirros, prendia por delitos de opinião, apodava de "comunistas" todos quantos não eram pela Situação. Paguei por isso o preço de me ter sido negado o acesso à magistratura e ter sido castigado militarmente com uma arma que não era obviamente para pessoas como eu, magríssimo de peso e soldado cadete de "armas pesadas de infantaria".
Com a democracia dei o contributo que me foi possível nas funções para que fui convocado. Nunca se me colou um lugar às mãos.
Hoje penso que chegou a altura de recolher.
Progressivamente fui diminuindo a participação na vida política. Limitava-me a votar e cada vez com menos convicção.
Nestas eleições aflui à mesa de voto que julgava ser aqui na Universidade Nova, à Avenida de Berna. Recambiaram-me para a secção de voto junto à Mesquita em Lisboa. Lá, estando certo o número da mesa, não constava dos cadernos eleitorais. Teria de me esclarecer na junta de freguesia, devido à unificação desta com outra. Para ali fui, para apurar que, afinal, teria de votar no lugar onde inicialmente tinha estado desde a manhã.
Nove dias depois, os partidos estão a fazer dos resultados dessas eleições o que lhes convém. Apoderaram-se do voto e as direcções partidárias interpretam o sentir popular num sentido e no seu contrário. Em resumo todos ganharam. Eu sinto ter perdido.
Não estamos longe dos gregos em que se tornou um "não" num "sim".
É deprimente o espectáculo de incerteza e o circo que se armou em torno do que é afinal a sorte do País.
Se isto é a democracia, prefiro abster-me. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Em 1969, tinha 20 anos, fui, orgulhosamente, delegado a uma mesa de voto. Morava na Amadora. Devido a ordens dos que então mandavam, capitaneados por um façanhudo regedor, nós os delegados, estávamos encurralados, numa espécie de ringue de boxe, delimitado por uns cordões, no meio da sala da junta de freguesia. Em frente a nós, tapando-nos a visão, a massa compacta dos votantes. Protestei porque, assim, não se saberia o que resultaria das urnas. Levava comigo um dossier que tinha sido preparado para o efeito. Quando consegui entregar ao presidente da mesa o meu protesto este, erguendo-o ao ar, proclamou «olha-me este, já começa a arranjar sarilhos!».
De facto. 
Hoje, ao ver os novos regedores e o que fazem das urnas, nem sei como poderia arranjar sarilhos, protestando contra a "chapelada", muito menos com quem.

22.8.15

Bicicletas para funcionários, patins para o Governo


[publicado por lapso originariamente no meu blog homónimo] Não falo aqui da minha profissão, mas foi por causa dela que estive hoje numas miseráveis - é o termo, miseráveis - instalações da PSP, indignas para uso de um organismo do Estado que desempenha funções de autoridade, ofensivas para os agentes da força pública que ali trabalham em condições aviltantes, abjectas para os cidadãos que ali têm de comparecer.
E foi ali mesmo, num televisor colocado na sala de espera, que o vi, um fulano que dizia o rodapé da imagem ser ministro, a dar conta de que o Governo vai incentivar os funcionários públicos a irem para as suas repartições de bicicleta.
Sim, de bicicleta como se o País fosse a Holanda e não, logo por falar em Lisboa, a das Sete Colinas, Coimbra a do Quebra-Costas e tantos outros lugares em que a tração animal se vê em tratos de polé para vencer o declive.
Nem sei, confesso, que sentimentos me atravessaram.
Logo o primeiro podia ser político, eu que ando afastado da política activa: para um Governo de um partido que se vai apresentar a eleições e que salteou a bolsa dos funcionários - mais a do que os demais cidadãos, e mais ainda a dos reformados - com sacrifícios insuportáveis, reduzindo-lhes o poder de compra e só tendo sobrevivido à ira porque reina na função pública a contenção verbal por amor à sobrevivência, que um acto intempestivo faria o recalcitrante perder o emprego, estando a maioria dos servidores públicos vergonhosamente em regime precário e a recibo verde, um Governo desses, dizia, como é este, vir agora carregar-lhes com o achincalho de irem para o trabalho de bicicleta, é, de facto, estar a pedi-las em termos de resultado eleitoral.
E não se diga que se trata de um programa ambiental, porque a mensagem que passa não é essa, porque a ser assim, sugeririam que utilizassem todos e não os funcionários mais transporte colectivo e menos transportes individual, e, a tornarem-se ciclistas os que andam a quatro começassem pelos governantes.
Mas confesso que foi a sensação de estar ante o ridículo o que me assaltou, lembrando-me de uma velha história anedótica que se imputava aos tempos do salazarismo, e tradutora do espírito da época. Assim, rezava a crónica, que um funcionário dos tempos "da outra senhora", sequioso de bajular Sua Excelência, o Presidente do Conselho de Ministros, tendo tido a rara oportunidade de se abeirar dele lhe teria dito, louvaminheiro: «Sabe, Senhor Presidente que hoje, fiel à política do Estado Novo de produzir e poupar, vim para a repartição a pé e não de eléctrico, como costumava fazer, e assim poupei oito tostões», ante o que, Salazar, o estilo frio e manhosamente desconfiando ante tanta lisonja e subserviência, lhe retorquiu, enfrentando o espanto do inesperado interlocutor: «pois fez mal, fez muito mal, porque se em vez de vir a pé em troca do eléctrico, tivesse vindo a pé mas a correr a trás de um táxi tinha poupado vinte e cinco tostões».
Eis o que, hoje, naquele ambiente de apoucamento e ridicularização da função pública, como senti as palavras da criatura que será ministro.


Há limites para tudo, de facto, até para a falta de decoro. Permito-me, aliás, supor, que se em vez de bicicleta, lhe calçarem os patins, ao autor da fala e o mesmo a outros como ele, aí sim o País poupa e bastante, pelo menos no efeito de ideias delirantes, estas e outras que tais como ela.

11.3.15

Uma manhã, a 11 de Março


Naquele dia, pelo fim da manhã, o telefone tocou no Ministério da Justiça. Era ministro Francisco Salgado Zenha, eu seu Secretário. Atendi a chamada. Era a notícia de que um avião T 6 sobrevoava o RAL 1 na Portela de Sacavém. Algo de grave se estaria a passar. O major Dinis de Almeida montara um dispositivo de tiro sobre a entrada em Lisboa. Avisei o ministro, que estava em Conselho de Ministros. Não sei se já saberiam. Com o passar dos minutos a tensão aumentou. Umas horas depois notícias de que se poderia entrar em conflito generalizado corriam desencontradas. Os locais nevrálgicos, sedes do Governo estavam em perigo. Ante a ameaça de um golpe de mão abriu-se um armário que se situava no corredor, que dava acesso ao gabinete do ministro e ao do chefe de gabinete. Estavam ali duas pistolas e uma metralhadora ligeira FBP. Foi-me atribuída uma, outra ao José António Pombinho, honrado cidadão de Portel, meu Colega então em funções, ex-director da Fazenda que o regime deposto havia demitido por razões políticas, cuja residência no Alentejo ostentava orgulhosa, mesmo anos depois, a bandeira do PCP.
Por ali ficámos à espera do pior. Felizmente não houve nenhum assalto ao Terreiro do Paço. Nesse dia o 25 de Abril rumava ao socialismo autoritário de Estado. Foi a 11 de Março.
A 12 de Novembro desse ano, tendo como missão ser Secretário do Conselho de Ministros, sob a presidência do Almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro, fiquei entre os cercados na Residência Oficial. Foi o cerco à Constituinte. Treze dias depois tudo cairia: Angola passaria para a órbita estratégica da URSS, o seu Governo reconhecido sob a égide do MPLA. Hoje é o que sabemos e nos é dado viver.

8.3.15

As duas metades do mesmo Céu


Recuso-me fazer à Mulher a injúria de a considerar generalizadamente melhor do que o Homem, como outros a injuriam considerando-a sistematicamente pior. Ela é semelhante como pessoa, igual como cidadã.
Que o Estado, tido por democrático, ainda lhe não lhe garanta a igualdade, que na sociedade, dita liberal, sejam as mulheres tratadas diferenciadamente, essa é uma questão. E contra isso urge lutar, uma luta que é também uma luta de homens, antiga já, com resultados a evidenciarem-se, luta que passa também por muitas dessas mulheres contra si próprias, a sua submissão, contra os frutos da educação que receberam e a que transmitem aos seus filhos.
Como ser, dotada de inteligência e sensibilidade, credora de respeito pela sua dignidade, a Mulher não pode, porém, ser colocada na balança romana em que tudo se pesa, nem na craveira em que tudo se mede, pois ela não é um objecto sujeito às leis da comparação.
O veneno da sociedade contemporânea é esse mesmo, ter erigido o abjecto mundo da quantidade, em que tudo é número e aritmética, em que nada se concebe fora do mais e do menos, do multiplicar e do dividir. Por causa disso, as duas faces do Mundo, o feminino e o masculino, entram na regra de cálculo de quem dá mais, regido pela lei da concorrência; e há quem se julgue mais alto e mais pesado só por causa do seu género.
Recuso-me a fazer a mim a injúria de tomar nas mãos um tal ábaco moral, uma tal régua discriminadora.
Hoje é Dia da Mulher. E eu, que sou pouco dado a celebrações, venho aqui precisamente por isso, prestar homenagem não ao género mas à espécie, não ao parcial feminino, sim ao total humano. 
Um dia, talvez não seja utopia, ter-se-à chegado a um mundo em que as diferenças convergirão, em que mães, mulheres, filhas, irmãs, receberão o mesmo respeito, mundo em que, de avós a mães e destas a filhas, de geração em geração, se saberá educar homens que aprendam que o diverso não exclui, educar-se-ão mulheres que não se diminuam antes de outros as diminuírem.
Ao terem terminado os seus atormentados dias, minha Mãe, levou consigo a força de alma de ter lutado, isolada, contra o horror da adversidade, logo o da sua incompatibilidade com o mundo. Imolou-se nisso, no fel da incapacidade de ser feliz. Gerou um único filho para quem não há caminho que não seja pedregoso mas que caminha. Na hora de a pensar, livre de tudo quanto foi circunstância e o desespero da dor, é uma "Grande Mulher" que penso, agora que já se foi.
Tantas como ela - e tantas outras mas com alegria irrompendo da esperança - são caminho para a realização do Homem Integral, em que o sexo é apenas distinção acidental na essência do humano, afinal profundamente humano, as duas metades do mesmo Céu.
Não julgo pelo que sofri nem pelo que fiz sofrer: a vida é sempre mais, infinitamente mais, do que a vida que nos foi dado viver.

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Foto: pintura de Margarida Cepeda.

1.11.14

Como eu subscrevo!

Como eu, que sou nada de coisa alguma, subscrevo! Raivosa e desalmadamente subscrevo!

25.8.14

A mansa revolta da dor


Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta não é mansa e gera o mal que se faz sofrer a partir do mal que se sofreu. E há sempre as vítimas sem razão.
Mas há um momento em que a violência brutal, que nos chega como quotidiana, já está para além da capacidade de a suportar.
Quando era miúdo não conseguia ver filmes que se diziam para a minha idade porque havia um nó na garganta, de dor, que me sufocava e as lágrimas contidas a tal ponto que os olhos pareciam implodir. Era uma forma, ouvia dizer, de, por esse meio, nos educarem a sensibilidade, gerando na nossa afectividade em formação, os bons sentimentos. E havia o cão que, morrendo, deixava o menino sozinho e o rapaz que, porque órfão, nunca seria menino. E a vida era um Natal gélido e faminto vivido do lado de cá da vidraça.
E depois era a mágoa dos amores quando ainda eram apenas ternuras inconsequentes, o medo dos adultos e da sua violência castigadora, os remorsos pelo tanto que se poderia ter feito ou por outra forma. E o pecado. E o dia em que as coisas de que gostávamos e as pessoas que amávamos começavam a morrer.
Hoje já não há muito disso que aleijou a alma. Torná-mo-nos adultos. Atentos ao mundo, há, porém, o que nos chega pelas notícias: a selvajaria das guerras entre povos e o mesmo povo, a cruel violência no seio da própria família. E, na dança macabra dos fins de festa, há a estupidez acéfala dos embriagados pela futilidade, a indiferença que nasce pela banalização do horror. Que não magoa menos.
Confesso que sinto de novo a surgir essa até agora longínqua incapacidade de suportar. 
Quando, porque nascido em Malanje, me chegaram, tinha eu doze anos, os primeiros sinais da violência feroz que se tornou em guerra, vinda da revolta indígena na Baixa de Cassanje, mais a violência feroz da retaliação e a ferocidade angustiante do medo, quando, tudo tornado pavor e insónia, a ingenuidade infantil quebrou estilhaçada em cacos, senti que se me franqueara do mundo o horrível e o feio. E tentei encontrar então uma razão que ao menos me desse a paz de uma explicação.
Hoje, como insecto estonteado ante a luz, dói-me só de ouvir e dói também constatar que evito saber. Não nasce aí o regresso à inocência, sim o enfrentar o espelho acusador da má consciência. 
É que foi este, afinal, o mundo que criámos e deixámos que surgisse.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta é connosco mesmo por causa daquilo em que nos tornámos.

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Fonte da imagem [quadro de Hugo Simberg]: aqui

10.6.14

Viva Portugal!



Oito séculos de História para darem numa Nação subjugada pelo Estado, Estado ocupado pelo Governo, Governo dominado pelo capital tornado Europa, Povo tornado vulgo.
Oito séculos de História a desembocarem na palavra Pátria se ter tornado tão vazia de significado que morta de sentido está, e até parece mal.
Dia de Portugal de portugueses mansos e submissos, os que periodicamente elegem, julgando escolher, os do partido dos seus donos, escravos da falsa liberdade de votar, os que na urna depositam, qual funerária fosse, a morte da sua intervenção civil, dia dos que se submetem ao que vier, por já não quererem sequer saber, fantasmas da cidadania, sonâmbulos do pesadelo que é estar-se aqui.
Dia também da hora dos contentinhos e alienados de Portugal, hipnotizados por qualquer imbecilidade televisiva do raiar da manhã ao cair da madrugada, dia dos raivosos e ululantes, sim, mas no futebol à hora do golo, dia dos demais a acomodarem-se pela desilusão que é a velhice da alma, mendigos do tostão e do se faz favor, fado da viela da pouca sorte, dia do penduricalho a rodos e do festim comemorativo das senhoras autoridades.
Dia do carteirista a sonhar-se burlão, da corista que podia ser actriz, do doutorado a teclar em caixas de supermercado, dia em que a reforma já foi quase devorada por ser dia dez, dia do ócio feito estudo, da sortuda ponte por ser feriado e em Lisboa feriado logo a seguir. Dia do nada e do coisa nenhuma.
E, no entanto, na sombra dos covis e das mansardas, onde nem a História os surpreende, há loucos por ideais que são de razia do tudo mesmo que para nada, ido que foi já o Império e com ele o ouro e a pimenta, os Brasis e as Índias da aventura e da pilhagem, esquecidos os heróis que a febre matou e a espada da traição dos seus liquidou de vez, doente de morte que está o Ocidente de que somos rosto esfíngico e fatal, nesses tugúrios da raiva, sozinhos que estejam, mortos que venham a ser pela explosão da bomba incendária que tudo isto merece, há um Portugal a ressurgir.
Dia de esperança, pois, em que do sombrio e do desespero, se abra, como uma salva de clamores e de revolta um "Viva Portugal", "Portugal, tu não morrerás!"

1.6.14

O triunfo do escárnio de do mal dizer


Abriu fogo, abatendo-os, a um e um, os ministros do PSD com quem agora está coligado. Enxovalhou banqueiros, que o seu Governo agora protege, políticos com os quais agora convive, a "porca da política" que é agora o seu lugar de frequência. 
Ridicularizou, apoucou, gozou que se fartou. Às suas mãos tudo foi escárnio e mal-dizer. Tudo quanto mexia abatia.
Fê-lo através de um jornal que franqueou à época todos os limites do admissível.
Entre as verdades que importava assim denunciar, publicando-as, e as mentiras publicadas que nunca foram como tal denunciadas, a tiragem subia e com ela os lucros dos seus financiadores.
Hoje, ante os jornalistas que o cercam de mão estendida por uma declaração "dá-se ares". E tudo resulta, porque em Portugal é assim que actualmente resulta.
Isto porque hoje, travestido na roupagem engravatada que os adultos vestem, ganhou a pose que no Estado se usa, está ministro. 
Já não traz o lápis atrás da orelha.
Impune, o jornal já fechado porque instrumento que foi do seu trepar a esacadaria do poder, diz que está «arrependido».
Não tem de que se arrepender! É assim que lá se chega, é desta massa que eles se fazem.
O mundo de ontem ensinava bons modos e tento na língua. Evitava-se o ataque pessoal. O combate era de ideias, não de vilipêndio.
Essa compostura dos conservadores atirou-os, entretanto, para o lixo do ridículo, como de uma senilidade bacoca de tratasse. 
A demagogia verbal, o soez do verbo tornaram-se a forma e modo.
Paulo Sacadura Portas começou com o "Independente". A meias com Miguel Esteves Cardoso. Hoje no encontro do «perdoa-me», diz tudo o que pode ler-se aqui.
O destempero verbal que, através dele, a novíssima direita ganhou é, já se viu, o modo de ganhar votos e popularidade. 
Iludida pela aparência, há quem confunda desbragamento com esquerda. 
É assim que nasce o fascismo, com o populismo e o assalto ao poder. Primeiro aos berros, enfim, silenciosamente, pela calada da noite se gerou o domínio da carneirada que qualquer troika pastoreia.
Basta começar em letra de forma. Um dia está-se a escrever no "Diário da República", com força de lei. 

1.5.14

1º de Maio


Claro que o capitalismo gerou o aburguesamente do operariado, tornando-o primeiro classe média, antes de os rebaixar porque, sujeito às suas crises endémicas, pauperizou-os, tornando essa classe intermédia, o "exército de reserva", a massa dos desempregados, sujeitos a toda a ignomínia, por força do rebaixamento salarial.
Tudo com uma diferença: é que esse novo proletariado perdeu a consciência de classe. Agem como vivem, minados pelo materialismo primário dos bens de consumo, endividados, quando podem, para alcançá-los. Estão contaminados pela ânsia do ter e diminuídos por lhes faltarem os bens que são a essência das suas existências.
Quem hoje luta pelas oito horas de trabalho, oito de descanso, oito de cultura? Quem tenta hoje, entre essa imensa maioria que não tem outra força salvo a do seu trabalho, que aluga a quem lho paga, por ser o Homem Integral?
Narcotizados pelo espectáculo mediático, acorrentados ao crédito, pobres e falidos, o 1º de Maio é para tantos, o dia de coisa nenhuma.

24.4.14

E depois do adeus


As datas redondas propiciam efemérides. 40 anos estarem volvidos sobre o 25 de Abril de 1974 abre via para todos quantos se preocupam com os factos em função do calendário. E jorram, assim rememorações em todos os tons e paladares.
Não é só isso, porém, que dá causa ao imenso que se tem agora escrito e dito e polemizado sobre esta data. Lembro que o ano passado a mesma estava quase em vias de cair no olvido público, salva pelo grupo resistente em torno da bandeira "25 de Abril Sempre!".
Que se passa então para esta comoção pública, que transcorre dos meios de comunicação de massas para as redes sociais, inclusivamente para as conversas de rua e até para a intimidade dos lares, trazendo doses maciças de "Revolução dos Cravos" a um público que, cada ano que passa, é mais formado por aqueles que não eram nascidos sequer, gatinhavam ou andavam pela escola primária quando se deu aquela pálida madrugada e que nada viram nem sentiram, então e nos «anos da brasa», quantos escolarizados por uma organizada historiografia nova falsificadas ela também pela ideologia, tornando factos em propaganda que só agora começa a decair?
Passa-se que estamos a sublimar, ao revolvermos aquele dia, a ânsia por um novo 25 de Abril, sabendo que há muitos que desejariam, sim, mas um 28 de Maio, a Revolução Nacional que acabaria por levar ditadura ao poder.
Passa-se que há quem comece a murmurar saudades pelos valores do passado, mesmo sendo o passado o do Estado Novo, e isso nas bocas dos que, com o PREC andavam matraqueando agitação permanente, a esquerda extremista, clamando, ó «radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista» o «nem fascismo nem social-fascismo», hoje zelosos serventuários do capitalismo mais decadente e predador que se viu nos últimos decénios, em suma, fazendo jus ao princípio chinês de que «o melhor espião é o convertido».
Passa-se que houve um País que no dia 31 de Março de 1974 aplaudiu o então Presidente do Conselho de Ministros Marcello Caetano quando do derby Sporting/Benfica e menos de um mês depois muito desse País vociferava "morras" porque destituído aquele, estava cercado no Quartel do Carmo. E com isso o vira-casaquismo, arte de sobrevivência na selva e nela meio simiesco de trepar.
Passa-se que houve um País que teve como Presidente da República um general, Costa Gomes, que fora «crachat de ouro» da PIDE e antes dele outro que passou de "bestial democrata" ao ter escrito "Portugal e o Futuro", antevisão do MFA, a "besta fascista" ao ter-se enrolado com a "maioria silenciosa" e o que se lhe seguiu.
Passa-se que o País, que se ia destroçando numa guerra civil em 1975, passou do colectivismo das nacionalizações e ocupações para o liberalismo das privatizações e concentração do capital financeiro em que as poucas famílias que eram donas da País voltaram a sê-lo mais uns quantos parvenus, os novos-ricos da nova Situação.
Passa-se que o País suportou a megalomania do bloco central e seus interesses privados, os desmandos irrealistas da governação de um José Sócrates, já falido e a delirar com o TGV, e rende-se hoje, desgovernado pelos credores usurários, aos diktats da troika e ao seu comanditário Passos Coelho, gritando imprecações que são a forma dos submissos se inconformarem, rendidos, porém.
Passa-se que o País acumulou ressentimentos, rancores, descobriu que os seus brandos costumes são afinal incapacidade e aquela forma acomodatícia do «o que é a gente há-de fazer», variante do «assim, como assim, isto é tudo o mesmo».
Passa-se que o País está hoje alienado em futebol e no voyeurismo - que é o prazer dos impotentes - a devorar, sequioso, pela TV mesquinhas vidas alheias e, encolhendo os ombros, a grandiosos escândalos públicos. E tudo se tornou circo onde não há pão. E negócio mediático.
Passa-se que os que sonhavam a queda do "fascismo" pelo "levantamento nacional popular", viram que uma vez mais, tal como com o general Gomes da Costa, os cadetes do Sidónio, foram os «capitães de Abril», em suma, as fardas, quem carregou no detonador do «basta!». E só no 1º Maio um "putsch" militar se tornou no arranque de uma revolução popular.
Só que hoje já não há Forças Armadas, sim, remanescentes fardados.
Passa-se que estamos à beira de um revolver entranhas da memória. 
Claro que Vasco Lourenço pode sorrir ao lado de Assunção Esteves, Ana Maria Caetano dar um beijinho a Otelo Saraiva de Carvalho. A Nação já não acredita em nada.
Nunca uma canção foi lema e hino fúnebre. Esta é. Deixo-a aqui. E depois do adeus: «Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci »

21.12.13

O original e o desde sempre


Foi há uns bons e idos anos, numa área de serviço, daquelas onde se pára para vazar ou abastecer. Eu ia, acompanhado, para uma casa de veraneio em São Martinho do Porto passar uns dias. Interceptado fui, ali, em plena cafetaria, por uma daquelas personagens «metediças» como dizia a minha Mãe, «fraldiqueiro» dos que tudo querem saber que, ante o destino que levávamos, perguntou, entre o incrédulo e o deslumbrado: «Mas têm lá casa?». Sem saber porque se estranhava respondi, com aquele assomo de verdade que às vezes nos leva ao pormenor dispensável: «ela tem».
Pensei que o assunto estava resolvido, incluindo a ressalva que não me apossava, nem pelo Verbo, de bens alheios.
Só que faltava o demais: «mas desde sempre?» perguntou, em jeito de remate, o meu insatisfeito interlocutor, porque isto de ter-se casa, em São Martinho - vulgo "o bidet das Marquesas", em alusão à calma baía que torna a praia numa espécie de lagoa tépida - já dá à coisa uma certa "patine", mas casa «desde sempre» é pedigree garantido, de que nem todo o futrica se pode gabar.
Lembrei-me disso hoje quando, por ter-me dado em Évora, num destes dias gélidos, cumprindo uma ânsia antiga, a guinada de comprar um capote alentejano, ao entrar esta manhã na pastelaria "Versailles", uma das sobrevivências lisboeta da belle époque en mauvaise temps, ter sido interpelado, após medição de cabo a rabo, pela pergunta abissal, vinda de boca amiga: «ah! um capote alentejano!», no caso verdade indesmentível e comigo dentro dele, ainda que mal ajeitado. Mas faltava o tom e o toque que diferenciaria: «Mas é dos originais?».
Fiquei sem saber como responder. Não foi preciso, porém. Sem dar-me tempo para explicar-me quanto à genuinidade da origem, fui eu esclarecido que «em Salvaterra há um tipo que os fabrica e são óptimos!».
«Óptimos!», percebe? que é uma palavra que integra o léxico privado do bon chic bon genre e ademais denota a raça.
E logo em Salvaterra que é, como se sabe, Alentejo profundo...e era a terra dos "barretes" dos idos Parodiantes de Lisboa essa hoje tão necessária e corrosiva "Graça com Todos!"

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Fonte da foto: aqui.

22.11.13

Numa bela e que seja magnífica madrugada..


Ouvi na rádio as palavras de Mário Soares. E olhando para muitos dos nomes que se perfilam em torno de si, lamento, não consigo acreditar que sejam alternativa para o grave momento em que vivemos. Estão aí tantos dos que nos conduziram aqui, muitos dos que lavam assim as mãos ao que nos trouxe até aqui, muitos dos que criticam como se falassem de um mundo a que são alheios.
As palavras de Mário Soares, ao vaticinar que caminhamos para a ditadura, são o eco trágico do mesmo que clamavam os republicanos na agonia da primeira República quando sucessivas hostes republicanas tentavam salvar a República, quando já não era com eles que a República se salvaria.
Tomo conhecimento também, da homenagem a Ramalho Eanes, à qual o mesmo não estará presente. Um Homem honrado perante quem me curvo em respeito. Mas de novo se perfilam em torno do acto, vultos em que não acredito, pessoas em quem não confio.
Lamento. É esta a minha verdade íntima. É deste pesar que faço a minha ausência na política, a minha escassa intervenção cívica.
Talvez nas sombras do que a ribalta mediática não reflecte, nalguma mansarda esconsa, nas catacumbas do afundado Portugal estejam os que protagonizem o futuro. Talvez tenhamos que esperar uma geração e, com ela, o tempo prolongado de sofrimento. Talvez tenhamos que aguardar o desmoronamento desta Europa, que se sabia que era a Europa do capital disfarçada da Europa social, a que trouxe a política financeira mais o expansionismo estratégico alemão como a mãe de todas as políticas e com isso a usura e agora a bancarrota dos endividados. Talvez tenhamos numa madrugada o desenlace fatal da revolta  generalizada, a irracionalidade de uma revolução. 
Um Regime Político está morto quando o Estado perde capacidade de encontrar salvação para o País que serve. Eis o que sucede à democracia partidária desta segunda República, dominada pelo rotativismo partidário de um bloco central de interesses, afinal o regime saído do 25 de Abril quando ele se estabilizou após o 25 de Novembro. Eis a repetição da história da primeira República que desembocou no 28 de Maio.
Ante isto, esta miséria e este vazio, só a Nação chamando a si, com a legitimidade de oitocentos anos de História, a condução dos seus destinos, em nome da Pátria dos portugueses, numa bela e que seja magnífica madrugada.


18.11.13

O ideal e a redenção


Penso que a questão se resume assim: houve um tempo em que, por sermos ainda tão pouco ante a vida então escassamente vivida, em que havia muito mais a unir do que a separar. Mas já então se notava a diferença entre nós. 
Houve um tempo em que, porque a juventude traz confiança e ilusão, minimizávamos o que nos dividia, ampliando o que nos irmanava. Sobretudo ante o que tínhamos como sendo uma causa comum.
O tempo, esse outro tempo que foi esgotando, porém, dispersou-nos, o espaço que se nos abriu como mundo, deu-nos, entretanto, a uns oportunidades a outros negações. E fomos formando ideias sobre o mundo, crenças sobre a transcendência, expedientes para a vida prática. Diferenciá-mo-nos. 
Nos momentos em que nos encontrávamos, ou nos eventos comemorativos, comensais, celebrávamos o ritual nostálgico dos tempos idos. Fingíamos, por não pensar muito nisso, que os dias da arriscada luta por um mundo novo, até por um homem novo, a luta também para que fossemos eternamente novos, ainda se mantinha na ordem do dia. 
A verdade, porém, insofismável, é haver agora já tanta diferença entre cada de nós: os arranjos e as conveniências, as derrotas e os sucessos, os cortejos de histórias miseráveis e de vidas de miséria tinham-nos tornado outros. 
Foi assim com os cadetes do 28 de Maio, com os capitães de Abril, com os da crise académica. Foi assim com os heróis da Rotunda, com os bravos da praia do Mindelo.
A nostalgia é a ânsia de purificação, o acordar ante o pesadelo do real lembra o pulsar do sonho arrebatador. No labirinto nocturno da madrugada são gerações cujo quotidiano é uma moral íntima que os acusa de traição.
Inexoravelmente a vida mata em muitos o ideal. Por isso renasce ciclicamente a geração da ousadia e do atrevimento que a substitui. 
Poucos resistem ao que foram sem serem uma caricatura de si.
Toleramos vergonhosamente o insuportável limitando-nos a um murmúrio, no mais desistentes.
Não vem isto por eu ser melhor do que os outros, não partilhar das mesmas fragilidades, não estar aquém do que eram os meus vinte anos. 
Digo e por isso escrevo o que vejo ainda fazer pulsar, triste embora, o coração de muitos que ousam acreditar que não foi em vão. E por saber que a vida dá em cada dia uma oportunidade de redenção.

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Origem da foto: aqui